Get Adobe Flash player
Portuguese English French German Italian Russian Spanish

É a estes dois monossílabos que se reduz, em última análise, toda a filosofia do Evangelho e toda a sabedoria dos séculos.

Ter — ou Ser?

Duas atitudes aparentemente incompatíveis.

Ninguém pode servir a dois senhores.

O homem que tem algo não pode ser alguém — e vice-versa.

O homem profano só conhece o ter, ou os teres, isto é, certo número de objetos quantitativos, que estão ao redor dele, no plano horizontal, e que ele considera ingenuamente como sendo seus bens. O profano total nada sabe do seu íntimo ser, de algo que não é dele, mas que é ele mesmo. Pode alguém ser milionário no plano horizontal dos seus teres, e ser ao mesmo tempo mendigo indigente na zona vertical do seu ser. De tanto ter, não chega a ser alguém.

Outros, mais avançados, resolvem renunciar a todos os seus teres e se isolam no puro ser, isto é, na divina essência do seu eterno Eu, sua alma, seu Cristo interno. E, de tão enamorados desse seu verdadeiro ser, desprezem soberanamente todos os ilusórios teres dos profanos. São os ascetas, os místicos, os yoguis, os austeros desertores de todas as coisas periféricas, os impávidos bandeirantes da verdade central. E, por mais tenebrosa que a outros pareça essa noite da renúncia absoluta e incondicional, ela é solene e grandiosa, porque possui a fas­cinante sacralidade das noites estreladas...

É a estes que Jesus se refere nas palavras que encimam o presente capítulo: “Quem não renunciar a tudo que tem não pode ser meu discípulo.

Quer dizer que qualquer ter, ou posse de objetos externos, impede o homem de ser discípulo do Cristo, ele, que não tinha onde reclinar a cabeça nada tinha, porque tudo era; porque o seu ter descera ao ínfimo nadir, quando o seu ser atingira o supremo zênite. Por fim, renuncia também ao ter mais intimamente ligado ao ser, o corpo físico. E assim acabou ele de “entrar em sua glória”.

Pode parecer estranho e humanamente inexeqüível esse inexorável radicalismo do Mestre. E não faltou quem mobilizasse contra essa sangrenta ver­dade da renúncia absoluta e incondicional todas as legiões da dialética mental, a ver se conseguia salvar do naufrágio ao menos alguns dos seus queridos ídolos, a ver se conseguia passar pelo “fundo da agulha” pelo menos com uma parte da bagagem que o profano costuma levar de reboque, nessa jornada terrestre; habituados a subornar os outros e a entrar de contrabando em todos os paraísos da terra, tentam eles aplicar essa sua política e diplomacia também, ao Evangelho do reino de Deus.

Entretanto, as palavras do Mestre não admitem vestígio de dúvida; são inexoravelmente claras:

“Quem não renunciar a tudo que tem não pode ser meu discípulo” — tudo, sem exceção de coisa alguma! O episódio trágico do jovem rico é uma ilustração clássica para essa verdade austera.

Tudo quanto o homem possui em bens terrestres torna-o dependente e escravo; mas o reino dos céus é somente para as almas completamente livres. En­quanto o homem tem algo que o mundo lhe possa tirar, ou deseja algo que o mundo lhe possa dar, não é definitivamente livre, e por isto não pode ser discípulo do Cristo. Os nossos teres quantitativos nos excluem do reino dos céus — o nosso ser qualitativo nos fez entrar no reino de Deus. Aproximamo-nos de Deus na razão direta do que somos, e na razão inversa do que temos. O ter é nosso, o ser é de Deus.

Mas, em que consiste esse ser?

Consiste na consciência da verdade sobre nós mesmos. Se conhecermos a verdade sobre nós mesmos, seremos livres. “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará. E, se o Filho do homem vos libertar, sereis realmente livres.”

Essa verdade libertadora sobre nós mesmos porém, está na experiência íntima da nossa essencial identidade com Deus — “eu e o Pai somos um —e na completa harmonia da nossa vivência cotidiana com essa verdade suprema.

Mas... não é necessário que o homem, aqui no mundo, possua certas coisas? Poderá ele viver decentemente sem possuir nada? Bastará, aqui na terra, o simples e puro ser? E não é um certo ter compatível com esse ser?

É este, talvez, o ponto em que o Cristianismo organizado falhou mais deploravelmente, e, o que é pior, as próprias igrejas cristãs procuram justificar esse espírito de possessividade de seus filhos — tanto mais que os próprios chefes espirituais são, não raro, os maiores possuidores de bens materiais. Será que a muitos desses chefes não caberiam as palavras veementes que o Cristo fulminou aos guias de Israel? “Guias cegos guiando outros cegos! Mas, se um cego guiar outro cego, ambos acabarão por cair na cova. Ai de vós, doutores da lei! Roubastes a chave do conhecimento do reino de Deus! Vós não entrais, nem permitis que outros entrem!”

Não há nada no Evangelho em que o divino Mestre insista com maior rigor e freqüência do que no espírito de absoluta e total renúncia aos bens terrenos, por sinal que ele considera a posse desses bens como absolutamente incompatível com o espírito do reino de Deus.

À primeira vista, parece possível e até necessário esse consórcio entre o ser e o ter, razão por que os teólogos e moralistas cristãos de todos os tempos têm tentado realizar esse congraçamento. Entretanto, continua a ser verdade inconcussa que “ninguém pode servir a dois senhores: a Deus e ao dinheiro”. Ter algo e ser alguém, são duas antíteses tão inexoravelmente hostis que nenhum tratado de paz é possível entre essas duas potências, assim como impossível é um consórcio entre as trevas e a luz, entre o não e o sim, entre a morte e a vida.

Entretanto, sem revogar o que acabamos de dizer, passaremos a explicar dois termos: possuir e administrar. É possível que o homem seja discípulo do Cristo, e ao mesmo tempo administre parte dos bens de Deus em benefício dos outros: filhos de Deus, seus irmãos. Deus é o único dono, proprietário e possuidor de todas as coisas que ele creou; nenhum homem é dono de coisa alguma e, se ele se arroga o direito de ser proprietário disto ou daquilo, comete crime de “apropriação indébita”, roubando a Deus e aos filhos de Deus algo que não lhe pertence. Por isto, nenhum genuíno discípulo do Cristo se considera possuidor, dono ou proprietário do dinheiro ou de quaisquer bens materiais que, casualmente, estejam sob a sua administração; considera-se invariavelmente como simples administrador desses bens, de cujo emprego terá de dar estreitas contas ao legítimo senhor e proprietário.

Lemos nos “Atos dos Apóstolos” que entre os primeiros discípulos do Cristo não havia propriedade particular, mas que todos os bens eram comuns. Não existia nenhuma lei externa que obrigasse os cristãos a socializarem os seus bens, mas havia neles a lei interna do amor nascido da compreensão da grande verdade de que todas as coisas do mundo são de Deus e que nenhum filho de Deus tem o direito de se arrogar a posse exclusiva de uma parte desses bens. A administração desses bens deve ser entregue a pessoas que tenham maior capacidade, e sobretudo maior espírito de desapego, mas o usufruto dos bens deve reverter sempre em prol da humanidade como tal. Se os homens se considerassem administradores, em vez de possuidores, dos bens materiais, seria proclamado o reino de Deus sobre a face da terra; cessariam guerras, explorações, brigas, roubos, assassinatos, etc. “A cobiça é a raiz de todos os males”, dizem os livros sacros.

Esse conceito de administração, em vez de propriedade, é um simples e espontâneo corolário da realização crística do homem. Em face do nasci­mento do sol do ser empalidecem todas as estrelas noturnas do ter. O homem crístico sente intuitivamente a total incompatibilidade entre o “ser discípulo do Cristo”, e “possuir bens terrenos”. Essa alternativa representa para ele um dilema de lógica inexorável: ou isto — ou aquilo! Uma vez que ele conhece a sua sublime dignidade em Cristo Jesus, como poderia, ainda, degradar-se ao ponto de colocar a mão, pesadamente, sobre algum pedaço de matéria morta e declarar enfaticamente: “Isto aqui é meu, e de mais ninguém!”? Semelhante atitude lhe pareceria tão incrívelmente ridícula e vergonhosa que ele não a perdoaria a si mesmo. E se, pela força das circunstâncias, esse homem for obrigado a assinar em cartório com firma reconhecida, algum documento de propriedade, tem ele plena consciência de que esse instrumento de posse vigora apenas no plano horizontal das pobres relações legais e jurídicas, mas que nada significa na zona vertical da sua atitude espiritual e ética, perante Deus e seus irmãos humanos; esse homem sabe que, a despeito do que ele assinou sobre as infalíveis estampilhas, testemunhas da hu­mana desconfiança e inconfidência, continua a não ser dono e proprietário de coisa alguma.

Também, como poderia um genuíno discípulo do Cristo declarar de boa-fé “este objeto me perten­ce”, quando ele mesmo já não se pertence, uma vez que pertence a Deus e à humanidade? Como apropriar-se de um objeto, se ele já desapropriou o próprio sujeito? Com o voluntário naufrágio do meu falso eu, do ego personal, naufragaram, também, todos os bens que eu chamava falsamente meus. A idéia do meu nasceu com a idéia do eu; quando esse eu morre morrem necessariamente todas as ilusões relacionadas com o meu. O EU verdadeiro, divino, nada sabe de meus, porque o zênite do ser provoca o nadir do ter: quem tudo é, nada tem; a intensa luminosidade do ser aniquila todas as trevas do ter. Quem de fato é discípulo do Cristo nada tem nem quer ter, para si mesmo, embora possa prestar-se para administrador de uma parte dos bens de Deus em prol de seus irmãos.

O que eu considero meu só tem função enquanto ainda vive em mim a noção do eu físico-mental; no momento em que o meu pequeno eu personal se afogar nas profundezas do TU divino e no vasto NÓS da humanidade, deixa esse conceito de meu ter razão de ser; é como um objeto suspenso no vácuo, depois que lhe foi subtraído o sujeito de inerência que lhe servia de base e substrato.

Por isso, o homem que atingiu a plenitude do seu ser, pelo despontar da consciência cósmica; perde toda a noção de posse e propriedade. Nada adquire e nada perde. O fluxo e refluxo incerto de lucros e perdas deixou de existir para ele, e com isto foi eliminada a fonte principal da inquietação que atormenta os profanos. Nada possui que o mundo lhe possa tirar, e nada deseja possuir que o mundo lhe possa dar. Entretanto, se as circunstâncias terrenas o nomearam administrador do patrimônio de Deus e da humanidade, esse homem administra com a máxima solicitude essa parcela do patrimônio terrestre universal.

Pela mesma razão , o homem que se despojou dos teres pela maturação do ser não experimenta a menor dificuldade nem tristeza em passar a outras mãos a gestão dos negócios temporários que lhe foi confiada.

O grande industrial norte-americano R. G. Le Tourneau, fabricante de possantes máquinas de terraplenagem, mandou colocar sobre a entrada de uma das suas fábricas o seguinte letreiro:

“Não digas: Quanto do meu dinheiro dou a Deus?

Dize antes: Quanto do dinheiro de Deus guardo para mim?”

Esse homem descobriu que nós não temos dinheiro algum, mas que todas as coisas do mundo são de Deus; entretanto, pode o administrador dos bens de Deus tirar para si uma pequena “comissão”. Le Tourneau, no princípio, tirava uma comissão de 90% para si, dando 10% a Deus, para fins de altruísmo e religião; hoje inverteu as quotas, dando 90% a Deus e guardando 10% para si. Entretanto, mesmo esses 10% Le Tourneau não se considera proprietário, senão apenas administrador, porque, também, este dinheiro pertence a Deus e à humanidade.

“Quem não renunciar a tudo que tem não pode ser meu discípulo.”

Há, se o mundo desse apenas 10% do salário, o mundo seria outro.

Trechos do Livro" O Sermão da Montanha de Humberto Roden, peça-o a Mártin Clárets Editores, Tel.: (11) 3672-8144

Há se o mundo desse apenas 10% do salário , o mundo seria outro.


PRÓXIMO TEMA - EM ALTO E BOM SOM


foto


GlobalBanner - Seu site de troca de banners